Beth Coe Maeda

Esmaltes macro-cristalinos

Cristal em detalhe

Os cristais sempre exerceram uma grande fascinação nas pessoas. Têm importância em religiões, processos de cura, poderes místicos, adornos, jóias...

Lá no seio da terra, muito quente, ele está se formando naturalmente.

Sua beleza é inquestionável. Traga ele toda a sorte dos cristais do Congo ou todo o mistério das mandalas. Devemos reconhecer; algo de místico há.

Os esmaltes macro-cristalinos num segundo capturam nosso olhar. É um esmalte tão perfeito que nos custa acreditar que só o fogo e a alquimia produziram um céu fictício onde bailam estrelas e cometas ou intrincados abismos onde nos projetamos e parecemos mergulhar.

A mágica desse processo faz um cristal, de rara beleza, surgir e crescer no vidro líquido da alta temperatura - imitando flores num jardim, estrelas no céu ou corais no mar - fazendo-nos esquecer que aquilo é só uma camada de vidro. É como se pudéssemos penetrar num abismo de cristais coloridos com delicadas formas e grande beleza. A eterna magia dos cristais traz aos olhos do homem tesouros infindos, como os que existem na natureza. Diamantes, safiras, esmeraldas, ouro e prata.

Tento dar às minhas peças um sabor místico, poético, que não tenha meras características técnicas. Trabalhar com cristais dá ao ceramista essa oportunidade - unir a imaginação e a técnica.

Eu acho esse esmalte o mais bonito na cerâmica artística e também o de processo mais complexo.

O crescimento do cristal começa com o desenvolvimento de uma "semente" cristalina ou ponto de nucleação, um grão minúsculo de mineral onde o macro-cristal se formará - nasce dentro de um vidro que possui uma lógica química, liquefeito pela alta temperatura.

Os cristais se formam em processo de calor e esfriamento - temperatura e pressão - a posição e o tamanho deles não se repetem.

As moléculas se movem ao acaso, moléculas tridimensionais se organizando para imitar a natureza.

São esmaltes muito especiais e muito instáveis, de inesperados efeitos, que não conseguimos reproduzir exatamente. O processo é muito intrigante.

As formações cristalinas são misteriosas, espetaculares - estouram e crescem como flores, podem ser arredondadas e ficar suspensas em um fundo que parece água.

É um esmalte que causa surpresa toda vez que abrimos um forno. Às vezes surge um grande cristal dentre um conjunto de jóias minúsculas, ora muito brilhantes, ora opacos. Pode-se também não encontrar cristal nenhum.

Não há maneira de se controlar totalmente o crescimento dos cristais e isso torna o trabalho muito mais emocionante. Mesmo que uma queima seja exatamente igual à outra, ainda assim tudo pode sair diferente a cada vez.

O tempo é o maior obstáculo. Entre a confecção de uma peça, secagem, queima de biscoito, que agonia! O tempo para formular o esmalte, aplicar e atear fogo. Uma queima nunca leva menos de 18 horas - horas de total dedicação e atenção a cada detalhe.

Alguns dizem que os esmaltes cristalinos já existiam no século XII entre os esmaltes japoneses e coreanos como os do Oilspot e do Kaki. Em meados de 1800 eram considerados acidentes do fogo e não provocavam interesse, pois o índice de perdas era muito grande.

Na Europa citam um começo no século XIX, em Sevres - França. Já no início do século XX, esses esmaltes com efeitos rejeitados pela indústria cerâmica passam a ser desenvolvidos por artistas da cerâmica em seus ateliês. Estes ceramistas/alquimistas surpreenderam o mundo com trabalhos, então contemporâneos, de rara beleza, tendo suas obras adquiridas por museus e colecionadores.

Perseverança e paciência fazem parte do dia-a-dia do ceramista que se dedica a essa arte. Momentos muito especiais vão surgindo ao longo dessa dedicação, alguns de grande alegria, mesclados aos de desapontamento.

Mais testes vão sendo feitos e as pequenas mudanças vão ter efeitos profundos nos resultados da próxima queima. Limitações de tempo, dinheiro e habilidade fazem com que as pesquisas sigam devagar.

Cristal em detalhe
Cristal em detalhe